irmandade criminosa maranata – Líderes da Maranata mandaram espionar igrejas

Líderes da Maranata mandaram espionar igrejas

Os alvos das investigações eram comunidades religiosas dissidentes, cujos cultos foram gravados; fiéis tinham perfil financeiro identificado

VILMARA FERNANDES | vfernandes@redegazeta.com.br
Foto: Gabriel Lordêllo
Presbitério da Igreja Maranata na rua Torquato Laranja, no centro de Vila Velha

Igrejas evangélicas foram espionadas a mando dos líderes da Maranata. O serviço foi executado por uma empresa de segurança e inteligência, que recebeu um total de R$ 14,8 mil. A investigação, que fotografou e gravou em áudio e vídeo os cultos, tinha como objetivo descobrir quem eram as lideranças e os fiéis dessas igrejas e até suas rendas. As informações constam da denúncia do Ministério Público Estadual, apresentada no dia 25 de junho. Os alvos da espionagem foram as igrejas Assembleia de Deus Tabernáculo, localizada no Centro de Vila Velha, e a Igreja Evangélica Louvai, que fica na Praia do Suá, em Vitória. Os pastores dessas instituições são dissidentes da Maranata, como muitos de seus fiéis.

Relatórios

Para a execução do serviço foi contratado o Grupo SEI – Segurança e Inteligência. Dois agentes da empresa investigaram a Tabernáculo entre os dias 15 a 18 de novembro do ano passado. Outros oito encarregaram-se de levantar as informações na Louvai, entre os dias 27 de novembro e 9 de dezembro de 2012.

O relatório referente a Louvai aponta que foi feito um “monitoramento intensivo”. Concluíram que ela possui uma “membresia financeiramente estabilizada, com alto poder aquisitivo”. Diz ainda que a igreja possui um templo alugado, em forma de “L”, onde há “várias telas de vídeo”. Afirmam ainda que várias pessoas têm aderido à igreja.

Já a Tabernáculo é descrita como uma igreja com cerca de 80 fiéis e que o trabalho no local “ainda é muito tímido”. Termina concluindo que “ficou patente a inauguração de mais uma denominação congregando membros dissidentes da Maranata”. Os relatórios foram acompanhados de fotos e gravações dos cultos e de suas lideranças e membros.

Para os promotores, a espionagem caracteriza-se como uma “devassa na fé alheia” e revela, por parte dos líderes da Maranata, uma preocupação de cunho econômico: a perda da arrecadação de dízimos e contribuições com a saída de dissidentes e a organização de igrejas concorrentes.

Os relatórios da espionagem, assim como dossiês de várias pessoas, foram apreendidos na Rádio Maanaim e na casa de líderes da Maranata em março deste ano, em uma operação da Polícia Federal em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Segundo os promotores do Gaeco, além das igrejas, foram espionados membros e ex-fiéis da Maranata, em uma investigação clandestina. “O material foi apreendido fora da sede administrativa da igreja. Se fosse assunto religioso ou da administração, por que estaria escondido em uma rádio ou na casa de líderes?”, questionam os promotores.

Crimes

O material foi usado, explicam os promotores, em coações, principalmente contra pessoas que testemunharam na investigação que apurava o desvio dos recursos do dízimo.

Pelas ameaças, cinco pessoas foram denunciadas. Três delas – incluindo um dos fundadores da Maranata, Gedelti Gueiros – fazem parte do grupo de 19 pessoas que respondem a processo pelos crimes de estelionato, formação de quadrilha, apropriação indébita e duplicata simulada. Dez foram detidas, e nove permanecem presas.

O outro lado

Silêncio

A Igreja Cristã Marata, por intermédio de sua assessoria de imprensa, informou que não vai se pronunciar sobre as investigações.

Outras atitudes clandestinas

Dossiês
Possuem relatos minuciosos, com informações pessoais de membros e ex-fiéis da Maranata. Vão do momento em que entraram para a igreja, sua atuação, atividades que exerceram dentro e fora da igreja, suas relações com membros e pastores onde congregam, documentos assinados, irregularidades que tenham cometido, situação financeira e até relatório de empregos ou empresas que possuam

Supostos crimes
Há dossiês com relatos de supostos ilícitos que não foram denunciados à polícia. Indícios de que seriam utilizados, segundo os promotores, para ameaças. Há dossiês até de pastores, antes próximos à cúpula

Códigos
Nas interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça foi identificado, segundo os promotores, o uso de códigos entre os membros da igreja. O objetivo era burlar as proibições legais que impediam os líderes de se reunirem. Assim, os encontros eram denominados de “reunião de oração”; informações eram “passar os dons”; e o presidente, o “nosso amigo”, entre outros exemplos

Cultos falsos
Reuniões entre os líderes eram constantes, mesmo com as proibições judiciais. Encontros que eram mascarados, segundo os promotores, como cultos ou reuniões de orações

Pregações
Gedelti Gueiros, presidente afastado pela Justiça, utilizou recursos da igreja para fazer ameaças a membros e ex-fiéis em suas pregações, segundo a denúncia

Pastores surpreendidos com investigação

Os pastores da Assembleia de Deus Tabernáculo e da Louvai foram surpreendidos com a descoberta de que suas igrejas foram espionadas. Para eles, ao contratarem esse tipo de serviço, os líderes da Maranata levaram a igreja a se desviar de sua finalidade religiosa e usaram, de forma inadequada, os recursos do dízimo dos fiéis.

As duas igrejas foram investigadas pelo Grupo SEI – Segurança e Inteligência, contratado pela Maranata.

Monitoramento

Em seu relatório, a empresa aponta que o monitoramento visava a identificar a localização das igrejas, os dias dos cultos e o perfil dos membros. Também foi investigado o tipo de doutrina adotada e as manifestações espirituais, como visões, revelações e uso de línguas estranhas.

Uma atitude que macula as igrejas evangélicas, segundo Samuel França, pastor da Tabernáculo e dono da Rádio Trombetas. “Nunca imaginei que isso fosse ocorrer.” Não é diferente com Mário Moraes, pastor da Louvai, que questiona os objetivos da investigação. “Qual o interesse em saber a doutrina de outra igreja?”, questiona Moraes, que é investigado no processo do desvio do dízimo da Maranata.

Tanto Moraes quanto França foram pastores da Maranata e deixaram-na há mais de um ano. Na avaliação deles, é questionável ainda o interesse econômico presente na espionagem, cujo relatório apontou não só o número de fiéis das igrejas, mas a condição financeira deles. “É lamentável que o dízimo dos membros da Maranata seja utilizado desta forma”, observa Moraes.

Interesse

Para França, o possível interesse em calcular as perdas da Maranata com a saída de fiéis que tenham um poder aquisitivo mais elevado mostra uma atitude mercenária. “Na prática, os líderes da Maranata querem só a lã e a gordura das ovelhas.”

Moraes acrescenta que as três igrejas foram vítimas da espionagem. “Tenho certeza de que os fiéis da Maranata não concordam com esta atitude.” Os dois pastores informam que os templos de suas igrejas são simples e que lá recebem fiéis de bairros nobres e das periferias.

Foto: Bernardo Coutinho – GZ

Pastor Samuel França Dono da Rádio Trombetas

Entrevista

“Brigam na Justiça por minha rádio”

Samuel França
Dono da Rádio Trombetas

Além de ter a sua igreja – a Assembleia de Deus Tabernáculo – espionada, o pastor Samuel França enfrenta uma outra ação movida pelos líderes da Maranata. Eles brigam na Justiça pela posse de sua rádio, a Trombetas.

Quando o senhor saiu da Maranata?
Em 5 de junho de 2012 protocolei o meu desligamento. No dia 18 do mesmo mês falei sobre o assunto na rádio. Foi aí que comecei a receber telefonemas estranhos.

O senhor foi coagido?
Recebi vários telefonemas e uma carta do escritório de advocacia que atende à Maranata. Queriam que deixasse de veicular na rádio os louvores que são de autoria deles. Mas nunca oficializaram o pedido, como solicitei. Também queriam que eu deixasse de falar na Rádio Trombetas. E agora sou alvo de uma ação na Justiça. Acredito que o objetivo seja o de coagir, amedrontar, me desestabilizar emocionalmente.

O que pleiteiam na ação?
A Rádio Trombetas. Alegam que pertence a eles, mas não é verdade. Na semana passada coloquei no ar gravações onde os líderes da Maranata revelam que a rádio é minha. Eles queriam comprar a rádio – como revelam os áudios que divulguei – e agora dizem que ela é deles. Mas nas gravações dizem exatamente o contrário. Não há coerência.

Prestava serviços para a Maranata?
A Trombetas é uma rádio web, que está em nome da minha empresa desde 2009, com registro no INPI. Veiculávamos conteúdo da Maranata e de outras igrejas. Só passei a ter problemas após minha saída da igreja.

O desvio de recursos influenciou em sua saída da Maranata?
Saí por questões doutrinárias. Os ensinamentos deles estão fora dos preceitos bíblicos. Os desvios a Justiça está apurando e não são um caso isolado dessa igreja. Outras também foram reféns de homens inescrupulosos. Agora, me deixou chocado a divulgação de gravações de pastores tendo um tipo de conversa que não faz parte do cristianismo. Contratar marketing para levantar o nome de uma igreja não faz parte dos padrões bibliocêntricos. Quem dá nome e estabilidade a igreja é o Espírito Santo de Deus. Não tenho nada contra o marketing, mas igreja é um organismo vivo e não pode usar armas humanas para o que somente Deus pode fazer.

E a espionagem contra sua igreja?
Não penso em fazer nada. É lamentável que o dinheiro dos fiéis da Maranata tenha sido utilizado de forma inescrupulosa. Mas não quero que mais pessoas tenham a sua fé abalada. O Evangelho ensina que é melhor sofrer penas e danos do que causar escândalos.

Entenda o que acontece na Maranata

Desvio de dízimo
Em fevereiro de 2011, o Ministério Público Estadual (MPES) começou a investigar se o dízimo doado pelos fiéis era desviado. A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público (MPF) Federal investigam se parte do dinheiro desviado teria sido usada para importar, ilegalmente, equipamentos para transmissão de cultos

Acusados
O ex-vice-presidente da igreja, Antônio Angelo Pereira dos Santos, e o diácono e contador Leonardo Alvarenga foram apontados como os responsáveis pela corrupção. Foram afastados e processados. Segundo o MPES, mais pastores estariam envolvidos

Operações
No fim de 2012, o MPES e a PF fizeram busca, apreensão e sequestro de bens da igreja e de pastores. Gedelti Gueiros, então presidente, foi afastado pela Justiça

Prisões
Em março deste ano, quatro pastores foram presos acusados de coagir testemunhas, um promotor e uma juíza, para mudarem os depoimentos sobre fraudes

Denúncia
Em maio, a Justiça aceitou a denúncia do MPES contra 19 líderes da Maranata pelos crimes de estelionato, formação de quadrilha, apropriação indébita e duplicata simulada (nota fria). Dez foram presos

Mais
No mês passado, cinco líderes da Maranata foram denunciados por coação a testemunhas.

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